Caruaru recebe lançamento do catálogo “Homens e Mulheres do Barro” nesta sexta-feira, 15
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O catálogo “Homens e Mulheres do Barro de Caruaru” será lançado nesta sexta-feira (15), às 19h, na Associação das Mulheres Artesãs Flor do Barro, no Alto do Moura, reunindo obras e trajetórias de nove ceramistas do Agreste Central pernambucano em uma publicação voltada à documentação, memória e salvaguarda da tradição milenar da arte em barro. Inspirado no legado de Mestre Vitalino (1909-1963), o projeto irá destacar artistas que mantêm viva a cerâmica figurativa popular enquanto dialogam com novas linguagens contemporâneas, sem perder de vista a tradição das peças que marcaram a origem do barro no interior nordestino.
Antes de se transformar em expressão artística reconhecida internacionalmente, o barro produzido no Alto do Moura esteve ligado ao cotidiano das famílias sertanejas. Panelas, moringas, potes, jarros e utensílios domésticos moldados artesanalmente ajudavam na sobrevivência econômica de dezenas de famílias da região. Ao longo do século XX, artistas como Mestre Vitalino passaram a transformar o barro também em narrativa visual, criando esculturas figurativas inspiradas em feiras populares, bandas de pífano, retirantes, vaqueiros, trabalhadores rurais e cenas da vida nordestina. A partir dali, o Alto do Moura consolidou-se como um dos principais centros de arte figurativa das Américas. É justamente esse encontro entre as obras figurativas que estrutura a publicação idealizada pelo produtor cultural Alexandre Veloso.
O catálogo reúne artistas de diferentes gerações que preservam técnicas tradicionais da cerâmica popular enquanto incorporam elementos contemporâneos, experimentais e autorais às peças produzidas atualmente no Agreste pernambucano. Com edição de luxo, capa dura, formato 24x26 cm, 120 páginas e impressão 100% colorida, o catálogo reúne fotografias, perfis biográficos e obras de artistas que ajudam a preservar e renovar a tradição ceramista do Alto do Moura.
A publicação possui tiragem de 500 exemplares e também contará com uma versão em audiobook com interpretação em Libras, que será disponibilizada gratuitamente no YouTube. A iniciativa busca ampliar o acesso ao conteúdo, especialmente para pessoas com deficiência, reforçando o compromisso do projeto com acessibilidade cultural e democratização da arte popular pernambucana.
A publicação integra uma coletânea literária dedicada à valorização da cerâmica popular pernambucana. Antes de Caruaru, Alexandre Veloso já lançou os catálogos “Homens de Barro Goiana”, em 2021, na Zona da Mata Norte, e “Homens e Mulheres de Barro Tracunhaém”, em 2024, município reconhecido pela tradição escultórica em barro.
O catálogo reúne fotografias assinadas por Hugo Muniz, textos de Felipe Andrade e Alexandre Veloso, curadoria de Jô Barbosa, interpretação em Libras de Roberto Carlos e assessoria de imprensa do jornalista Salatiel Cícero. Entre os artistas retratados está Cleonice Otília, conhecida por transformar o barro em instrumento de narrativa afetiva e resistência cultural. Uma de suas obras mais conhecidas, a “Abraçadeira”, simboliza acolhimento, afeto e as relações familiares do interior nordestino.
A publicação também destaca o trabalho de Marliete Rodrigues da Silva, Patrimônio Vivo de Pernambuco e filha do Mestre Zé Caboclo. Sua trajetória começou ainda na infância, observando a mãe produzir brinquedos de barro e peças populares. Hoje, suas miniaturas coloridas recriam cenas do cotidiano do Alto do Moura e preservam características históricas da cerâmica figurativa caruaruense.
Outro nome presente é Terezinha Gonzaga, Patrimônio Vivo de Caruaru. A artista iniciou sua trajetória produzindo peças ao lado da família, que vivia da comercialização de louças de barro vendidas na feira de Caruaru. Com o passar dos anos, ampliou seu repertório artístico e passou a desenvolver esculturas figurativas reconhecidas dentro e fora do Brasil.
O catálogo também presta homenagem ao trabalho de Mestre Luiz Antonio, Patrimônio Vivo de Pernambuco e de Caruaru. O artista começou ainda criança acompanhando os pais no transporte de panelas e utensílios de barro vendidos na feira local. Influenciado diretamente pela obra de Mestre Vitalino, construiu uma trajetória marcada pela representação de cenas populares e personagens do cotidiano nordestino.
Outro destaque é Mestre Luiz Galdino, que iniciou a produção artística ajudando a mãe na fabricação de jarras e peças domésticas. Posteriormente, passou a incorporar à cerâmica f igurativa representações femininas marcadas pela sensualidade e pela estética contemporânea. Representando a continuidade direta do legado familiar de Vitalino, Elias Vitalino surge como um dos nomes da nova geração da arte figurativa do Alto do Moura.
Suas esculturas em pequena escala retratam bois, bandas de pífano, cangaceiros e trios de forró, mantendo referências clássicas da cultura popular nordestina. O diálogo entre tradição e contemporaneidade também aparece no trabalho de Humberto Botão, cuja produção transita entre surrealismo, expressionismo e reutilização de materiais. Já Ratinho apresenta peças marcadas pela experimentação artística e pela liberdade criativa, enquanto Shivo reúne referências da cultura popular e da crítica visual contemporânea em suas esculturas conceituais de La Ursas.
Com incentivo do Funcultura, Fundarpe, Secretaria de Cultura de Pernambuco e Governo de Pernambuco, o projeto tem realização de Alexandre Veloso e apoio cultural da Associação das Mulheres Artesãs Flor do Barro. A publicação amplia o debate sobre preservação patrimonial, acessibilidade cultural, circulação da arte popular e valorização dos artistas que seguem moldando, no barro, parte significativa da identidade cultural nordestina.





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